Estar apaixonado é sofrer a paixão; sofrer e exercê-la, sobre nós próprios. Estar apaixonado é estar exposto; ao vento, à chuva, ao medo, à desilusão. É sofrer insegurança, é exagerar aquilo que se vê ou reduzir a nada aquilo que se não quer ver. Estar apaixonado é, aos olhos de um observador, viver num universo totalmente irregular, desfocado, desproporcionado, surrealista, onírico, sem centro, sem geometria, sem simetria, sem perspectiva de objectividade, sem medida. Este observador diria que o mundo enlouqueceu como se tivesse tomado uma dose de ácido alucinogéneo. Isto é o que diria o observador meticuloso acerca do mundo que se desenrolasse sob o seu olhar. Ainda assim, este observador teria termo de comparação: o mundo objectivo lá atrás - o real - , e a paixão diante dele. O seu pânico derivaria desta comparação. Este ser não gostaria nada da sensação de estar apaixonado; ele saberia dizer perfeitamente do que é que gosta e o que é que quer, mas sempre com o terreno da racionalidade e do razoável atrás de si para poder retirar. O apaixonado, aquele que gosta de se sentir apaixonado, revela, nesta análise, uma idiossincrasia diferente: para o observador citado o mundo não tem centro, ou talvez seja tão vasto que se possa considerar cada ponto dele um centro – é um mundo infinito em que nada significa nada senão nas latitudes e no quadro de representação que ele deliberadamente escolheu para o esquadrinhar e (isto deveria ele saber) ilusoriamente compreender. Se isto é ilusão cada qual julgue como entender mas, definitivamente, é um mundo tão bidimensional como um quadrado de papel, i. e., sem qualquer sombra. Este mundo tem qualquer coisa de seguro – o controlo, a medida, o proporcional. O mundo do apaixonado é selvagem; é perigoso; nele não se pode controlar seja o que for; tudo é imprevisto, improvisado. O apaixonado não conhece o território, tem a vida constantemente em perigo, é um coelho fechado numa jaula de leões. O apaixonado veria o mundo tal como o veria o observador mas, ao contrário dele, não o acharia estranho: dir-se-ia mesmo que o ácido que alucina a mente do observador é o estado normal da vida do apaixonado – o mundo estranho de um, é o dia-a-dia do outro. Fundamentalmente, tão iludido é um na sua paixão, como é o outro na sua lucidez, se bem que de maneiras diferentes (é como se a droga de um desse ilusões azuis e a do outro ilusões amarelas). Que vantagens tem um e que vantagens tem outro? O observador raramente perde: tem terreno para retirar; tem o controlo das emoções; tem a presciência dos movimentos do inimigo; goza de uma boa margem de antecipação e relativiza as baixas. Sente-se feliz por ganhar. Ganhar é mais importante do que a vida e a morte. Viver é secundário porque, aliás, de um modo geral, estes seres não entendem (ou não procuram entender), o que é viver ou morrer. Ganhar é tudo. Entender. Medir. Avaliar. Controlar. Para o apaixonado passa-se tudo diferentemente: o apaixonado sabe bem o que é perder – ele perde constantemente. Para ele não é mais importante ganhar do que sentir-se vivo. O apaixonado goza os prazeres e as delícias de se sentir vivo – essa é a sua recompensa. Estar apaixonado é como ser o escolhido. O apaixonado é o centro do Universo, ele vive, tal como Cristo na cruz, todos os males (e os poucos bens), que o mundo guardou para si. Ainda que o seu sofrimento seja indescritível, ele é o único no mundo a sentir tanto cada segundo da sua existência. Sobre ele tudo cai, como um buraco negro que não deixa escapar nada. O apaixonado é o escolhido, ele sabe-se o escolhido contra todas as justificações – ele sabe-o; não o explica. Ser o escolhido não é exactamente como ser o melhor (isso seria relativizar), é mais como ser o único! O que se sente escolhido é, primeiro que tudo, único, só depois, secundariamente, o melhor, o segundo melhor ou o pior, se bem que o melhor de entre os escolhidos é o mais cego perante esta classificação: aos olhos dele, ele, o escolhido será, mais tarde ou mais cedo, o melhor. O observador sofre por não se sentir vivo, e o escolhido sofre por não ganhar. Será possível “viver” vitorioso sem ser por acaso ou calcular a vitória sem que nos fuja a “vida”? e que aconteceria se puséssemos um pé em cada lado e planeássemos tudo sem ganhar e sofrêssemos tudo sem viver? Será isto real? Surreal? Não. É o mundo dos mortos-vivos: o Inferno ainda é quente e distante, mas para nós o Inferno é já... e tremem-nos os dentes.
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